Atravessamento
"A realidade é um alívio"
A gata deu aviso de férias e não cumpriu. Acontece. Mas é por um bom motivo: fui atravessada como que por um trem por declarações da psicanalista Ana Suy em um podcast que ouvi enquanto corria na semana passada. Ela disse que outra psicanalista e pediatra, a francesa Françoise Dolto, costumava falar que todos os filhos são adotivos, mesmo aqueles consanguíneos. Que o bom maternar/paternar consiste em abandonar a ideia do filho ideal para adotar o filho real. Achei isso tão forte e tão bonito. Eu já andava pensando muito nesse papo de ideal x real. O psicólogo americano Carl Rogers, que desenvolveu a Abordagem Centrada Na Pessoa, contribuiu com diversas áreas da psicologia ao longo de sua longa e prolífica carreira, mas foi ao final de sua vida que chegou a uma conclusão genial a respeito do sofrimento humano. Ele chamou de incongruência a distância que existe entre o “eu real” e o “eu ideal” (ideal self e perceived ou ideal self, em inglês) de alguém, que seria esse o grande gerador das nossas angústias. Explico. Rogers defende em sua teoria que todos os seres têm uma tendência natural a crescerem, amadurecerem e se desenvolverem, o que ele chama de Tendência Atualizante. Para ele, estamos todos vivendo no sentido de evoluir, o que é uma visão bem positiva. O que impede que evoluamos da forma correta, rumo a uma vida plena, é, principalmente, uma questão de auto percepção - a distância que existe entre quem somos de fato e quem achamos que somos. Quantas vezes ouvimos um amigo dizendo que não gosta de determinada coisa e buscando exatamente isso para si? Esse é um exemplo bem óbvio sobre alguém que acha que não gosta de algo enquanto deseja aquilo. Nem sempre a incongruência é óbvia e explícita assim, ela pode morar nos pequenos detalhes que acabam por atravancar a nossa vida. Para Rogers, uma atualização acontece quando diminuímos o eu ideal e o aproximamos do eu real. Ainda segundo ele, o eu ideal nunca vai desaparecer, a vida é dinâmica e é impossível manter-se no eu real o tempo todo, mas a busca por ele seria um bom caminho para administrar a angústia tão natural da vida.
No mesmo podcast que citei lá no começo, an Ana Suy diz que “a realidade é um alívio”. Quando a gente sai da fantasia para encarar situações e pessoas no campo do real a pressão se esvai. O fato, o concreto, é algo com que podemos nos relacionar e evoluir, escolher, enfrentar, enfim, realizar uma ação. A fantasia oferece soluções fantásticas que não tem impacto na transformação da realidade. Eu sei bem disso. Deu B.O. e eu corro para o meu refúgio de livros e séries, vou me alienar para não encarar. Tem gente que escolhe drogas, bebida, trabalho, atividade física, filhos, enfim, são muitas as possibilidades de fuga. Por um tempo, isso pode até funcionar. Mas a hora de abraçar o real sempre chega, por mais duro que ele seja, estejamos preparados ou não. Eu me tornei alguém que prefere saber, acho que é o que naturalmente acontece quando você entra em um processo psicoterapêutico. Eu entendo quem nega as aparências e disfarça as evidências, é um jeito de adiar o enfrentamento e pode ser até necessário. No fim das contas, concordo com o cara que escreveu que viver é melhor que sonhar.



Amo que a gente ouve os mesmos pods e se impacta com o que ouve! ❤️